domingo, 15 de janeiro de 2017

Possui o Homem Livre-Arbítrio?

 James Kennedy 


“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36) 

         Possui o homem livre arbítrio? Penso que a maioria das pessoas reconhece que esse é um dos temas mais profundos que jamais ocuparam as mentes dos maiores pensadores do mundo. Teólogos e filósofos, igualmente, se têm concentrado em torno desse grande enigma: é o homem, realmente, possuidor de livre arbítrio? ou é ele, meramente, um títere, impelido para lá e para cá pelas forças do acaso? Parece ser uma contradição que um Deus todo soberano e uma criatura livre possam coexistir dentro do mesmo universo. Pode parecer que, se um homem é livre, então Deus não controla todas as coisas.

              Em primeiro lugar, perguntar se o homem desfruta de livre arbítrio é dar forma imprópria à indagação. Seria mais exato falarmos em um agente livre ou em uma alma livre, porquanto a vontade do homem nunca age independentemente de todas as suas demais faculdades. A vontade do homem não é alguma espécie de giroscópio interno, que se movimente e gire como bem quiser. Antes, faz parte integral do ser humano — a alma humana.

             O que é a alma de um homem? A alma do homem é o seu intelecto, as suas emoções e a sua volição, ou, de modo mais simples, a sua mente, o seu coração e a sua vontade. Por conseguinte, quando o homem resolve agir, ou quer fazer algo, o impulso inicial ocorre em sua mente. Então, porque ele possui algum conhecimento, dentro dele surge um sentimento — os afetos e apetites humanos, que fazem parte do quadro total de sua personalidade.

          
       Esses dois fatores, pois, atuam acerca de qualquer dada questão, e dizem à vontade o que é preciso fazer. A vontade, sem exceção alguma, faz aquilo que a mente e o coração lhe dizem para fazer. A vontade do homem, portanto, nunca age de modo contrário à sua mente e ao seu coração. 

        O segundo problema que envolve a pergunta: “Possui o homem livre arbítrio?”, é uma questão d semântica. Exatamente, o que queremos dizer com livre arbítrio? Porventura pretendemos dizer: o homem tem a capacidade de escolher qualquer coisa que queira fazer? A resposta é: Sim, ele tem! Essa é uma 
inalienável contribuição de Deus à alma humana — o homem faz, sempre e somente, o que lhe agrada. O homem é um agente auto-motivador. Ele pode originar ações e escolher o que melhor lhe agradar, em qualquer dada ocasião. 

        O Dr. John Gerstner escreveu que é impossível forçar a vontade do homem. Possuir um livre arbítrio forçado seria contrário ao sentido da expressão. Ele ilustra isso afirmando que se ele pusesse um livro na mão de alguém, para em seguida apontar uma arma de fogo para sua têmpora e dizer: “Deseje ler este livro ou eu lhe arrebentarei os miolos!”, nem assim conseguiria forçar a vontade desse alguém, já que tal pessoa acabaria tomando uma decisão. A mente dessa pessoa alimentaria certos fatos à sua consciência, às emoções e aos afetos, acerca de quanto ela ama ou não a própria vida. E o mais provável seria que essa pessoa ameaçada acabaria chegando à decisão de ler o livro! 

      Sob outras circunstâncias, que envolvam coisas mais significativas que a mera leitura de um livro, tem havido cristãos que têm chegado a outras conclusões. Com efeito, Nero disse a milhões de cristãos: “Ou vocês renunciam a Cristo, blasfemando de Seu nome, ou haverão de desejar que alguém lhes rebente o cérebro. Vocês serão pelados, cozidos em água fervente, entregues aos leões e postos em sacas com víboras e serpentes”. Diante de tais alternativas, centenas de milhares de cristãos tomaram a sua decisão! Suas mentes forneceram-lhes determinados fatos a respeito da vida presente e da eternidade, e a maioria deles pensou que seria melhor perder esta vida e ganhar a eternidade, do que conseguir sobreviver por mais alguns anos sobre a terra e perder a vida eterna. Os seus afetos penderam em favor de Cristo Jesus, a quem amavam mais que a própria vida. A decisão deles foi: “Pois que venham os leões!” Contudo, essa foi a escolha deles! Não foi algo forçado! Sem qualquer exceção, o homem faz aquilo que lhe parece melhor, à luz dos fatos e sentimentos envolvidos. 

           Reitero que o homem, em cada caso, é livre para fazer o que bem lhe aprouver. Mas daí não se deve concluir, necessariamente, que o homem é livre para fazer o que deveria moralmente fazer! Ora, qual é o dever moral do homem? O homem tem o dever moral de amar a Deus, de arrepender-se dos seus pecados, de aceitar a Jesus Cristo mediante a fé. O homem tem o dever moral de amar os mandamentos divinos, de desejar levar uma vida santa, de amar a pureza, a santidade, a retidão. O homem tem o dever moral de esforçarse quanto a todas essas coisas. E, no entanto, a Bíblia deixa claro que nenhuma pessoa é livre para fazer o que, moralmente, deveria fazer. 

              A Bíblia revela-nos que Deus fez o homem — Adão e Eva — conferindolhe o poder da escolha contrária. Também conferiu aos nossos progenitores a capacidade de fazer o que é bom, de fazer o que é nosso dever moral. E o primeiro casal deveria ter obedecido a Deus e observado o mandamento que Ele lhes dera! Note bem: eles tinham a capacidade de praticar tanto o bem quanto o mal. Assim era o homem no estado de inocência, o seu estado primitivo, antes que tivesse a experiência do mal, enquanto ainda não fizera aquela escolha fatal.

        As Escrituras descrevem o segundo estado do homem como um estado pecaminoso. Por causa de seu pecado, Adão mergulhou a raça humana inteira no pecado e na morte do pecado, o que significa que todos nós nascemos dotados da natureza caída de Adão. Depois de haver despedaçado e maculado a imagem divina, Adão produziu uma progênie com a sua própria imagem decaída. Algumas pessoas acreditam que o homem nasce dotado da mesma condição primitiva de Adão. Mas isso não é verdade. Adão foi criado no estado de inocência; desde então, todos os homens nascem em pecado. 

        A Bíblia descreve o homem pecaminoso chamando-o de homem natural, impelido pelo desejo natural de praticar o pecado. Isso não quer dizer, entretanto, que o homem sai por aí assaltando bancos! Mas significa que tudo quanto o homem faz é pecaminoso. A Bíblia assevera que “até a lavoura dos ímpios é pecado”. Quando o homem sai e põe-se a trabalhar em um emprego, isso é pecado. Quando ele almoça, isso também é pecado, porquanto assim obtém forças para continuar em sua rebeldia contra Deus. Em seu estado natural pecaminoso, tanto seu coração, como suas emoções, sua mente, seus motivos, suas finalidades, seus alvos e tudo quanto há no homem é contrário ao Senhor Deus. 

         As coisas que o homem natural põe em prática podem ser boas em si mesmas. Talvez ele contribua com um milhão de cruzeiros para fins caritativos; e, no entanto, fá-lo por razões erradas e motivos errados — quiçá para que obtenha certa dedução sobre o seu imposto de renda, ou para que seja louvado pelos homens. Jesus disse: “... amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus”. Com freqüência, os homens cultivam a falsa noção de que, de alguma maneira, estão comprando para si mesmos uma propriedade imóvel no céu. Porém, ensinam-nos as Escrituras: “... os que estão na carne não podem agradar a Deus”. Por conseguinte, é impossível para o homem natural fazer coisas boas sem primeiro conhecer a Cristo, sem que antes tenha nascido do alto, por atuação do Espírito Santo, e assim se tenha tornado uma pessoa remida. 
              A Bíblia ensina, igualmente, que o homem natural acha-se em estado de inimizade contra Deus; que tal homem não está sujeito à lei de Deus, e nem mesmo o pode estar. A Bíblia assevera que o homem está morto em seus pecados, que o homem ama a injustiça, e não a retidão, pois está preso ao seu pecado. 

         A pergunta que agora se impõe é a seguinte: Goza o homem natural da liberdade de preferir praticar o bem, de escolher a Jesus Cristo, de aproximar-se de Deus? A resposta é um inequívoco “Não!” 

           Muitos protestantes referem-se ao homem natural como se ele tivesse a capacidade de simplesmente deixar de ser injusto e ímpio, e de começar a viver piedosamente! Mas esse é um ensino romanista, e não o que Lutero ou outros reformadores ensinaram. Um dos maiores livros de Lutero intitula-se A Escravidão da Vontade. Foi Erasmo, o racionalista, quem escreveu a respeito da liberdade da vontade humana. Lutero declarou que o homem é prisioneiro do pecado e vive controlado por suas próprias paixões e desejos, não podendo abandonar a estes a fim de praticar o bem. Experimentalmente, Lutero sabia que essa era a sua própria condição. E Jesus ensinou a mesma coisa. Disse o Senhor: “Vós éreis escravos do pecado. Doravante, porém, não vos chamo mais servos, mas tenho-vos chamado amigos”.

           Jesus também declarou: “Todo o que comete pecado é escravo do pecado”. É interessante observarmos que Martinho Lutero apelidou-se de Martinho Eleutério, isto é, Martinho, o Livre. Ele fora escravo do pecado, agrilhoado às suas paixões e desejos; porém, encontrou com Jesus Cristo e foi libertado. Jesus também declarou: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”. E também: “... conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Os escribas e os fariseus, entretanto, não gostaram desse conceito. A reação deles foi: “Somos descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém...”. Mas Jesus retrucou: “Todo o que comete pecado é escravo do pecado”. A iniqüidade e a injustiça controlam a vida do homem natural, e ele pratica o que aqueles lhe recomendam que faça. Mas, se o Filho de Deus libertar alguém, esse alguém verdadeiramente será livre! Consideremos o que está subentendido nessa declaração — se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres! 

              Em seu estado natural, o homem é escravo do pecado. Um escravo pode pensar que lhe é dado fazer qualquer coisa que quiser, mas a verdade é que o homem sempre prefere fazer o que é torto. Ponhamos uma Bíblia e uma garrafa de bebida alcoólica diante de um alcoólatra. Esse homem tem a liberdade de fazer o que bem entender; a dificuldade é que já sabemos o que ele sempre preferirá! Convidemos um toxicômano a uma festa de heroína ou a uma reunião de oração; ele tem a liberdade de fazer o que bem entender, mas o problema está naquilo que ele vai querer fazer! Ofereçamos uma caixa de bombons de chocolate a um glutão; ele tem a liberdade de comê-los ou não — mas, é ele, realmente, livre? Não! Pelo contrário, é controlado pelo seu apetite. É um escravo, e, por conseguinte, é servo de suas próprias emoções, afetos, desejos e paixões.
              E que me seja dado salientar que ele pode preferir eliminar a prática de qualquer dessas coisas; todavia, não pode preferir ser santo. Pois mesmo que viesse a livrar-se de seu álcool, de seu tóxico e de sua glutonaria, ainda assim continuaria sendo um pecador profano, incapaz de escolher a Cristo Jesus. E por que se encontram essas pessoas nessas condições? É que a mente e o coração delas estão entenebrecidos pelo pecado. Sua mente e seu coração as enganam. Acham-se em estado de inimizade contra Deus.
              Por qual motivo, pois, quando o homem natural contempla a Jesus Cristo, Aquele que é inteiramente amorável, nada vê nEle capaz de atrai-lo? É que seu coração e sua mente lhe enviam a mensagem errada. E assim, prefere não arrepender-se e entregar sua vida a Jesus Cristo. Tal homem não é livre. Antes, é um escravo, e acha-se no estado de pecaminosidade.
            Não obstante, quando o homem natural acolhe a Jesus Cristo em seu coração, como seu Salvador e Senhor, toma-se um indivíduo regenerado, renovado, e passa a encontrar-se no estado de graça. Daí por diante torna-se capaz de praticar o bem. E, visto que agora dispõe da graça de Deus, é capaz de obter vitórias morais em sua vida, e, finalmente, chegará a atingir o estado de glória. Nesse estado de glória, que será a condição dos remidos, lá no céu, ele terá sido selado por Deus, tornando-se capaz de praticar somente o bem. 
        O ensino bíblico a respeito do homem, é: Inicialmente, o homem estava no estado de inocência — capaz de fazer o bem e capaz de cair no pecado. Mais tarde, já no estado de pecado, em sua natureza caída, ele tornou-se capaz somente de pecar. O homem é incapaz de alterar a sua natureza moral, incapaz de elevar-se para chegar à santidade. Em terceiro lugar, tendo-lhe sido conferido o estado de graça, o homem pode fazer ambas as coisas. E, em quarto lugar, quando atingir o estado de glória, haverá de ser selado para praticar somente o que é bom. 

         Se até hoje você não recebeu a Jesus Cristo como seu Salvador, então eu lhe exorto a examinar-se a si mesmo e a perceber seu total desamparo, sua total incapacidade de fazer algo senão aquilo que serve somente para desagradar a Deus. Que você seja capacitado, pela graça divina, a clamar ao Filho de Deus para que Ele o liberte — a fim de que você verdadeiramente seja livre! 


Ansiava minha alma detida em prisão Atada ao pecado e a natura trevosa. Teus olhos, porém, foram logo um clarão: Que na cela acordei vendo-a então luminosa’ E a masmorra se abriu e liberto me vi, Que saindo das grades então O segui. 

Charles Wesley

 Senhor Jesus, nós Te agradecemos que tenhas libertado aqueles que em Ti confiam. Que Tu tenhas feito de nós reis e herdeiros de Teu reino. Que nos tenhas libertado da servidão ao pecado e tenhas declarado que o pecado não mais exercerá domínio sobre nós, Pai, oro em favor daqueles que continuam na servidão que os amarra, aprisiona e puxa para baixo, cada vez a um pecado mais profundo. Pai, oro para que Tu os libertes dessas algemas, e que soltes os prisioneiros. Que possam sair da servidão e de suas trevas e de seu pecado para Aquele que pode libertá-los — Cristo, o grande Emancipador do pecado. Amém. 

Fonte: Verdades que Transformam, James Kennedy, Editora Fiel, páginas 19-26

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