3 Porque eu mesmo desejaria ser anátema. O apóstolo não
poderia ter expressado seu amor com mais intensa veemência do. que o faz à luz
da presente afirmação. Este é o amor perfeito, o qual não foge nem mesmo de sua
própria morte em favor da salvação de um amigo. Mas a palavra que ele adiciona
— anathema - revela que sua referência não se limita só à morte temporal, mas
também abrange a morte eterna.
Ele explica seu
conteúdo, ao dizer: separado de Cristo
- pois anathema tem o sentido de separação. E separação de Cristo não significa
precisamente ser excluído de toda e qualquer esperança de salvação? Assim,
pois, tal atitude era uma prova do mais ardente amor, a saber: que ele nem
mesmo hesitou em evocar sobre si a condenação que via pendente sobre os judeus,
visando a que viesse de alguma forma, livrá-los. Não há contradição no fato de
que ele sabia que sua salvação se achava radicada na eleição divina, a qual não
podia de forma alguma ser desfeita. As emoções mais profundas irrompem
impetuosamente sem levar em conta, ou sem considerar nada, senão o objeto sobre
o qual se fixaram. Paulo, pois, não adicionou a eleição divina à sua oração; ao
contrário, deixou-a fora de suas cogitações, volvendo sua atenção unicamente
para a salvação dos judeus. Muitos de fato têm dúvida se este era um desejo
lícito; mas tal dúvida pode ser assim removida: "A fronteira estabelecida
é o amor que vai até onde a consciência permite."Se, pois, nosso amor está
em Deus, e não fora de Deus, então ele nunca será demais. Tal era o amor de Paulo,
porquanto via sua própria raça revestida com tantas bênçãos divinas, e ele
mesmo havia recebido os dons divinos por intermédio deles, e a eles mesmos em
razão dos dons divinos. Daí a razão de seu profundo sofrimento, ao ver que
estes dons pereceriam.
E assim, como que fora de si e com o espírito em confusão,
ele se prorrompe em ardente desejo .
E por isso rejeito a opinião daqueles que acreditam que o
apóstolo pronunciou estas palavras unicamente do prisma divino, e não do prisma
humano. Tampouco concordo com outros que dizem que ele levou em conta só o amor
aos homens, sem qualquer consideração para com a pessoa de Deus. Quanto a mim,
faço uma conexão do amor em relação aos homens com o zelo em relação à glória
de Deus. Não obstante, ainda não expliquei o ponto principal do apóstolo, ou,
seja: que os judeus são aqui considerados como que adornados com suas
características distintivas, as quais os distinguiam do resto da raça humana.
Deus, mediante seu pacto, os exaltara tão sublimemente que, se porventura
fracassassem, então a fidelidade e a verdade de Deus mesmo também fracassariam
no mundo. O pacto foi invalidado, o qual, por assim dizer, deveria manter-se
firme enquanto o sol e a lua brilhassem no céu [SI 72.7]. Assim, a abolição do
pacto seria tão estranha quanto o mundo inteiro se voltando contra si mesmo
numa espantosa e angustiosa sublevação. Paulo, pois, não faz aqui uma mera
comparação entre os homens, porque, embora fosse melhor que um só membro
perecesse do que todo o corpo, ele demonstra uma elevada consideração pelos
judeus, visto que os reveste com o caráter e qualidade de um povo eleito. Isso
surgirá com maior evidência do próprio contexto, como logo veremos no devido
lugar. Embora as palavras, meus compatriotas, segundo a carne, não signifiquem
nada novo, contudo contribuem grandemente para ampliar o significado da
passagem. Em primeiro lugar, para prevenir que alguém concluísse que,
premeditada, ou instintivamente, ele buscava oportunidade para provocar
controvérsia com os judeus, então notifica que não se despira do sentimento de
humanidade para que não se sentisse afetado pela terrificante destruição de sua
própria carne. Em segundo lugar, visto ser necessário que o evangelho, do qual
era arauto, surgisse de Sião, não é sem razão que insista tanto em seus
encômios dirigidos a sua raça sem qualquer propósito em vista. A expressão
qualificativa, segundo a carne, não é, em minha opinião, adicionada com o
propósito de humilhar os judeus, mas para, ao contrário, gerar neles confiança
na pessoa do apóstolo. Ainda que os judeus houvessem deserdado a Paulo, ele não
oculta o fato de que sua origem está radicada nesta nação, cuja eleição
perpetuou vigorosamente na raiz, mesmo quando os ramos haviam murchado. A
interpretação de Budaeus acerca do termo anathema contradiz Crisóstomo, que
confundiu iivétegia com dváfiripa.
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