quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

COMENTÁRIO DE JOÃO CALVINO ROMANOS 9 versículo 3

3 Porque eu mesmo desejaria ser anátema. O apóstolo não poderia ter expressado seu amor com mais intensa veemência do. que o faz à luz da presente afirmação. Este é o amor perfeito, o qual não foge nem mesmo de sua própria morte em favor da salvação de um amigo. Mas a palavra que ele adiciona — anathema - revela que sua referência não se limita só à morte temporal, mas também abrange a morte eterna.
 Ele explica seu conteúdo, ao dizer: separado de Cristo - pois anathema tem o sentido de separação. E separação de Cristo não significa precisamente ser excluído de toda e qualquer esperança de salvação? Assim, pois, tal atitude era uma prova do mais ardente amor, a saber: que ele nem mesmo hesitou em evocar sobre si a condenação que via pendente sobre os judeus, visando a que viesse de alguma forma, livrá-los. Não há contradição no fato de que ele sabia que sua salvação se achava radicada na eleição divina, a qual não podia de forma alguma ser desfeita. As emoções mais profundas irrompem impetuosamente sem levar em conta, ou sem considerar nada, senão o objeto sobre o qual se fixaram. Paulo, pois, não adicionou a eleição divina à sua oração; ao contrário, deixou-a fora de suas cogitações, volvendo sua atenção unicamente para a salvação dos judeus. Muitos de fato têm dúvida se este era um desejo lícito; mas tal dúvida pode ser assim removida: "A fronteira estabelecida é o amor que vai até onde a consciência permite."Se, pois, nosso amor está em Deus, e não fora de Deus, então ele nunca será demais. Tal era o amor de Paulo, porquanto via sua própria raça revestida com tantas bênçãos divinas, e ele mesmo havia recebido os dons divinos por intermédio deles, e a eles mesmos em razão dos dons divinos. Daí a razão de seu profundo sofrimento, ao ver que estes dons pereceriam.
E assim, como que fora de si e com o espírito em confusão, ele se prorrompe em ardente desejo .

E por isso rejeito a opinião daqueles que acreditam que o apóstolo pronunciou estas palavras unicamente do prisma divino, e não do prisma humano. Tampouco concordo com outros que dizem que ele levou em conta só o amor aos homens, sem qualquer consideração para com a pessoa de Deus. Quanto a mim, faço uma conexão do amor em relação aos homens com o zelo em relação à glória de Deus. Não obstante, ainda não expliquei o ponto principal do apóstolo, ou, seja: que os judeus são aqui considerados como que adornados com suas características distintivas, as quais os distinguiam do resto da raça humana. Deus, mediante seu pacto, os exaltara tão sublimemente que, se porventura fracassassem, então a fidelidade e a verdade de Deus mesmo também fracassariam no mundo. O pacto foi invalidado, o qual, por assim dizer, deveria manter-se firme enquanto o sol e a lua brilhassem no céu [SI 72.7]. Assim, a abolição do pacto seria tão estranha quanto o mundo inteiro se voltando contra si mesmo numa espantosa e angustiosa sublevação. Paulo, pois, não faz aqui uma mera comparação entre os homens, porque, embora fosse melhor que um só membro perecesse do que todo o corpo, ele demonstra uma elevada consideração pelos judeus, visto que os reveste com o caráter e qualidade de um povo eleito. Isso surgirá com maior evidência do próprio contexto, como logo veremos no devido lugar. Embora as palavras, meus compatriotas, segundo a carne, não signifiquem nada novo, contudo contribuem grandemente para ampliar o significado da passagem. Em primeiro lugar, para prevenir que alguém concluísse que, premeditada, ou instintivamente, ele buscava oportunidade para provocar controvérsia com os judeus, então notifica que não se despira do sentimento de humanidade para que não se sentisse afetado pela terrificante destruição de sua própria carne. Em segundo lugar, visto ser necessário que o evangelho, do qual era arauto, surgisse de Sião, não é sem razão que insista tanto em seus encômios dirigidos a sua raça sem qualquer propósito em vista. A expressão qualificativa, segundo a carne, não é, em minha opinião, adicionada com o propósito de humilhar os judeus, mas para, ao contrário, gerar neles confiança na pessoa do apóstolo. Ainda que os judeus houvessem deserdado a Paulo, ele não oculta o fato de que sua origem está radicada nesta nação, cuja eleição perpetuou vigorosamente na raiz, mesmo quando os ramos haviam murchado. A interpretação de Budaeus acerca do termo anathema contradiz Crisóstomo, que confundiu iivétegia com dváfiripa.

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