4. [Que] são israelitas. Ele agora explica por que a
destruição de seu povo lhe causara tanto infortúnio que se sentia até mesmo
disposto a redimi-lo com sua própria morte. Eles eram israelitas. O pronome
relativo [que, subentendido) substitui um advérbio causal. Esta é a mesma
angústia que atormentava Moisés quando desejou ser eliminado do livro da vida,
contanto que a raça eleita e santa de Abraão não se reduzisse a nada [Êx
32.321. Além do afeto humano, o apóstolo assina-la outras razões de maior
importância que o obrigavam a amar os judeus. O Senhor lhes dera o elevado
privilégio de serem separados da ordem comum do gênero humano. Estes sublimes
louvores emanados de seus lábios, dirigidos à dignidade deles, são provas de
seu amor. Geralmente, só dirigimos expressões amorosas a quem realmente amamos.
Ainda que os judeus, apesar de sua ingratidão, fossem célebres por esses dons
divinos, mesmo não os merecendo, Paulo não cessa dedicar-lhes o devido
respeito. Daqui aprendemos dele que os ímpios não podem corromper os sublimes
dons divinos, de tal maneira que deixem de ser sempre merecidamente dignos dos
mais elevados encômios e de serem tidos na mais elevada estima, mesmo quando os
que os usam deles abusem, sem nada derivar dos mesmos senão ainda maior
infâmia. Assim como não devemos menosprezar os dons divinos nos ímpios, com
base no ódio deles para conosco, assim, ao contrário, devemos usar de prudência
a fim de que nossa bondosa estima e consideração por eles não lhes inflame o
orgulho, e muito menos adquiram nossos louvores a aparência de bajulação.
Imitemos a Paulo, que confirmou os privilégios dos judeus de uma forma tal que
a seguir declara que sem Cristo não existe nada que mereça algum valor. Ao
incluir-se no rol dos israelitas, nos louvores de seus privilégios, não o faz
sem qualquer propósito, pois Jacó orou para que fossem chamados por seu de nome
{Gn 48.16], e exigiu isso como sendo a mais sublime das bênçãos.
Pertence-lhes a adoção. A
intenção de Paulo, em todo seu discurso, consiste em que, não obstante haver os
judeus se separado dc Deus de forma blasfema, por sua apostasia, contudo a luz
da graça divina não se extinguira definitiva e completamente deles, como disse
em Romanos 3.3. Embora fossem incrédulos e houvessem quebrado o pacto divino,
contudo sua perfídia não anulara a fidelidade divina, não só porque Deus
houvera preservado para si, em sua progênie, um remanescente dentre toda a
multidão, mas também porque o titulo igreja ainda continuava em seu seio por
direito de herança.
Os
judeus haviam, então, despojado a si mesmos de todos os privilégios, de modo
que desvaneceu-se-lhes toda e qualquer vantagem o título filhos de Abraão. Não obstante, visto que corria-se o risco de os gentios
fazerem pouco da majestade do evangelho através da fé judaica, Paulo não leva
em conta o que de fato mereciam, mas encobre sua conduta vil e desonrosa ao
lançar sobre eles muitos véus, assim os gentios foram plenamente persuadidos de
que o evangelho originara-se-lhes de uma fonte celestial, do santuário de Deus
e de uma nação eleita. Pois o Senhor passou por todas as demais nações e
selecionou os judeus como um povo que lhe fosse particular, e adotou-os como
seus filhos, segundo ele mesmo testifica pela boca de Moisés e dos profetas. E
não contente em simplesmente chamá-los de filhos, às vezes os chama de meu
primogênito, e às vezes de meu amado. Assim diz o Senhor em Êxodo 4.22-23:
"Israel é meu filho, meu primogênito." "Porque sou pai para
Israel, e Efraim é meu primogênito" [Jr 31.91. E outra vez: "Não é
Efraim meu precioso filho? filho de minhas delícias? Pois tantas vezes quantas
falo contra ele, tantas vezes me lembro dele com compaixão" [Jr 31.201.
Com
tais expressões, sua intenção era não só exibir sua indulgência para com
Israel, mas, acima de tudo, exibir o poder da adoção, na qual a promessa de
herança celestial se acha contida.
Glória significa a excelência com que
o Senhor exaltou este povo acima de todas as demais nações, tanto pelas muitas
e diferentes formas como pela habitação em seu seio. Além dos muitos sinais de
sua presença, ele anteriormente exibiu uma singular prova dessa glória na arca,
da qual ele tanto respondeu como ouviu a seu povo, a fim de demonstrar seu
poder através de seu socorro. Foi por essa razão que recebeu ela o nome "a
glória de Deus" [ISm 4.22]
Visto que Paulo fez aqui distinção entre pactos e promessas, é mister que notemos a existência da seguinte diferença:
um pacto é aquilo que é exprimido com palavras expressas e solenes, e contém
uma obrigação mútua. Por exemplo, o pacto feito com Abraão. As promessas,
porém, são encontradas em diversos lugares na Escritura. Pois assim que Deus
fazia um pacto com seu antigo povo, não mais cessava de oferecer-lhe sua graça,
de tempo em tempo, por meio de promessas renovadas. Segue-se que as promessas
se acham relacionadas com o pacto, como sua única fonte, da mesma maneira que o
socorro especial, por meio do qual Deus declara aos crentes seu amor, emana da mesma
e única fonte da eleição. E visto que a lei era simplesmente a renovação
daquele pacto, para assegurar que ele seria lembrado mais plenamente, tudo
indica que legislação aqui deve restringir-se particularmente às coisas que a
lei decretara. Para os judeus, ter Deus como o Legislador era uma honra mui
singular. Se outras [nações] se gloriavam de seus Sólons ou de seus
Licurgueses, quanto mais razão há para se gloriar na lei! Lemos disso em
Deuteronômio 4.32.
Pelo termo cultos, Paulo tinha em mente aquela parte da lei na qual a
forma legitima de se cultuar a Deus é prescrita, tal como os ritos e as
cerimônias. Estes teriam que ser considerados legítimos por conta da ordenação
divina, sem a qual toda e qualquer invenção humana outra coisa não seria senão
profanação da religião
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