sexta-feira, 4 de agosto de 2017

João Calvino (1509-1564) Comentário Romanos capitulo 6 vs 1


Que diremos, pois?


 Ao longo deste capítulo, o apóstolo defende a tese de que aqueles que imaginam que Cristo nos comunica a justificação gratuita, sem comunicar igualmente a novidade de vida, dilaceram ignominiosamente a Cristo. Contudo, ele avança um pouco mais e propõe a seguinte objeção: se os homens continuam em pecado, tal coisa aparentemente põe diante de nós uma grande oportunidade para que a graça seja ostentada. Temos experiência de como a carne é inclinada a apresentar alguma justificativa para sua indiferença. Satanás também vive sempre pronto a engendrar todo gênero de calúnia com o fim de lançar ao descrédito a doutrina da graça. Não devemos deixar-nos dominar pelo espanto quando, ao ouvir acerca da justificação pela fé, a carne com frequência se choca contra diferentes obstáculos, visto que toda verdade proclamada referente a Cristo é completamente parodoxal pelo prisma do juízo humano. Entretanto, nosso dever é prosseguir em nossa rota. Cristo não deve ser suprimido só porque para muitos ele não passa de pedra de ofensa e rocha de escândalo. Ao mesmo tempo que ele prova ser destruição para os ímpios, em contrapartida ele será sempre ressurreição para os fiéis. Teremos sempre que encontrar respostas às questões transcendentais, a fim de que a doutrina cristã não seja envolvida em aparentes absurdos. O apóstolo sai no encalço da objeção que é mais comumente assacada contra a proclamação da graça divina. Ou, seja: se porventura for verdade que a graça de Deus nos assistirá muito mais liberal e abundantemente à medida que nos sentimos sobrecarregados com um fardo de pecados sempre mais pesado, então nada melhor que provocarmos a ira de Deus, submergindo-nos no abismo do pecado e perpetrando-o cada vez mais com novas ofensas, pois só assim experimentaremos a graça mais abundantemente, visto que ela se constitui no maior benefício que porventura venhamos a desejar. Veremos mais adiante como podemos refutar um conceito tão estapafúrdio e virulento.

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