
2. De modo nenhum [que Deus nos livre!].
Certos intérpretes defendem a tese de que o único desejo do
apóstolo era reprovar com indignação uma atitude tão irracional e fútil.
Contudo, outras passagens provam que frequentemente Paulo mostra ao longo de seu
argumento quão corriqueira era tal atitude. Aqui também contesta, com muito
tato e de forma breve, a calúnia contra sua doutrina da graça. Em primeiro
lugar, contudo, ele rejeita tal calúnia com uma negativa saturada de
indignação, com o fim de advertir seus leitores que não há maior contradição do
que nutrirmos nossos vícios a pretexto da graça de Cristo, visto que ela é o
único meio de restaurar nossa justiça.
Nós os que para ele morremos?
Agora ele extrai seu argumento da posição contrária. Porquanto,
quem peca, vive para o pecado. No entanto, pela graça de Cristo estamos mortos
para o pecado. Portanto, é falso sustentar que aquilo que abole o pecado lhe
injeta maior força. A verdade, ao contrário disto, reside no fato de que os
crentes nunca são reconciliados com Deus sem que recebam antes o dom da
regeneração. Deveras, somos justificados com este mesmo propósito, a saber: que
em seguida adoremos a Deus em pureza de vida. Cristo nos lava com seu sangue e
faz Deus propício para conosco através de sua expiação, fazendo-nos
participantes de seu Espírito, o qual nos renova para um viver santo. Portanto,
seria a mais absurda inversão da obra divina se o pecado recebesse força por
meio da graça que nos é oferecida em Cristo. A medicina não tem por alvo tornar
a doença ainda mais grave, quando sua meta é destruí-la. É bom que tenhamos bem
firmado em nossa mente o que já referi anteriormente, ou, seja: que Paulo não
está aqui tratando do estado em que Deus nos encontra ao chamar-nos à comunhão
de seu Filho, e, sim, o estado em que nos achávamos quando ele nos revelou sua
misericórdia e graciosamente nos adotou. Ao fazer uso de um advérbio que denota
futuro, Paulo mostra o gênero de transformação que deve seguir a justificação.
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