quinta-feira, 12 de outubro de 2017

João Calvino (1509-1564) Comentário Romanos capitulo 6 vs 5


Porque, se fomos unidos com ele na semelhança de sua morte.


 O apóstolo confirma o argumento que previamente apresentara, fazendo uso de expressões mais claras. A comparação que introduz remove toda e qualquer ambiguidade, visto que nosso enxerto significa não só nossa conformidade com o exemplo de Cristo, mas também com a união secreta [arcanam coniunctionem],por meio da qual crescemos unidos a ele, de tal forma que nos revitaliza pela instrumentalidade de seu Espírito e transfere para nós seu poder. Portanto, assim como o elemento enxertante tem a mesma vida ou morte do ramo no qual é enxertado, também é razoável que sejamos plenamente participantes tanto da vida quanto da morte de Cristo. Se formos enxertados na semelhança [in similitudinem] da morte de Cristo, visto que sua morte é inseparável de sua ressurreição, então a nossa morte seguirá nossa ressurreição. No entanto, as palavras podem ser interpretadas de duas formas, a saber: ou que somos enxertados em Cristo na semelhança de sua morte, ou que somos simplesmente enxertados em sua semelhança. A primeira redação exigiria que o dativo grego, ὁμοιώματι, se refira ao modo de nosso enxerto. Não nego que isso tenha um sentido mais profundo, visto, porém, que o outro significado é mais apropriado à simplicidade da expressão, preferi usá-la aqui. Faz pouca diferença, entretanto, visto que ambas equivalem à mesma ideia. Crisóstomo sustenta que, pela expressão -em semelhança de homem" (Fp 2.71] ele quer dizer “sendo feito homem". Parece-me, contudo, que existe na expressão mais importância do que simplesmente isso. Além de referir-se à ressurreição. parece achar-se implícita a ideia de que não passaremos pela morte natural à semelhança de Cristo, mas que existe esta similitude entre nossa morte e a dele - assim como Cristo morreu na carne que recebera de nós, também morremos em nós mesmos, a fim de que possamos viver nele. Nossa morte, pois, não é a mesma [morte] de Cristo, se não que é semelhante à dele, pois devemos no. ter a analogia [analogia] entre a morte nesta presente vida e nossa renovação espiritual.


               Fomos unidos [insiticii facti]. Esta palavra (unidos ou enxertados) recebe grande ênfase e revela nitidamente que o apóstolo não nos está exortando, e, sim, ensinando acerca do benefício que derivamos de Cristo. Ele não está requerendo de nós algum dever que nossa prudência ou diligência pode realizar, mas está falando do enxerto que é efetuado pela mão divina. Não há razão para forçosamente aplicara metáfora ou comparação a cada detalhe, pois a disparidade entre o enxerto de árvores e o nosso enxerto espiritual prontamente se evidencia. No enxerto de árvores, a parte enxertada extrai sua nutrição das raízes, mas que retém sua propriedade natural no  fruto que serve de alimento. No enxerto espiritual, contudo, não só derivamos o vigor e a seiva da vida que fluem de Cristo, mas também transmitimos de nossa própria natureza para a sua. O apóstolo desejava simplesmente realçar a eficácia da morte de Cristo, a qual manifestou-se na destruição de nossa carne, e também a eficácia de sua ressurreição que nos renova interiormente segundo a natureza superior do Espírito.

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