Porque, se fomos unidos com ele na semelhança de sua morte.
O apóstolo confirma o
argumento que previamente apresentara, fazendo uso de expressões mais claras. A
comparação que introduz remove toda e qualquer ambiguidade, visto que nosso
enxerto significa não só nossa conformidade com o exemplo de Cristo, mas também
com a união secreta [arcanam coniunctionem],por meio da qual crescemos
unidos a ele, de tal forma que nos revitaliza pela instrumentalidade de seu
Espírito e transfere para nós seu poder. Portanto, assim como o elemento
enxertante tem a mesma vida ou morte do ramo no qual é enxertado, também é
razoável que sejamos plenamente participantes tanto da vida quanto da morte de
Cristo. Se formos enxertados na semelhança [in similitudinem] da morte de
Cristo, visto que sua morte é inseparável de sua ressurreição, então a nossa
morte seguirá nossa ressurreição. No entanto, as palavras podem ser
interpretadas de duas formas, a saber: ou que somos enxertados em Cristo na
semelhança de sua morte, ou que somos simplesmente enxertados em sua
semelhança. A primeira redação exigiria que o dativo grego, ὁμοιώματι, se refira ao modo de nosso enxerto. Não
nego que isso tenha um sentido mais profundo, visto, porém, que o outro
significado é mais apropriado à simplicidade da expressão, preferi usá-la aqui.
Faz pouca diferença, entretanto, visto que ambas equivalem à mesma ideia.
Crisóstomo sustenta que, pela expressão -em semelhança de homem" (Fp 2.71]
ele quer dizer “sendo feito homem". Parece-me, contudo, que existe na
expressão mais importância do que simplesmente isso. Além de referir-se à ressurreição. parece achar-se implícita a ideia de que não passaremos pela morte natural à
semelhança de Cristo, mas que existe esta similitude entre nossa morte e a dele
- assim como Cristo morreu na carne que recebera de nós, também morremos em nós
mesmos, a fim de que possamos viver nele. Nossa morte, pois, não é a mesma
[morte] de Cristo, se não que é semelhante à dele, pois devemos no. ter a
analogia [analogia] entre a morte nesta presente vida e nossa renovação
espiritual.
Fomos unidos [insiticii facti]. Esta palavra (unidos ou enxertados) recebe grande ênfase e revela nitidamente
que o apóstolo não nos está exortando, e, sim, ensinando acerca do
benefício que derivamos de Cristo. Ele não está requerendo de nós algum dever
que nossa prudência ou diligência pode realizar, mas está falando do enxerto
que é efetuado pela mão divina. Não há razão para forçosamente aplicara
metáfora ou comparação a cada detalhe, pois a disparidade entre o enxerto de
árvores e o nosso enxerto espiritual prontamente se evidencia. No enxerto de
árvores, a parte enxertada extrai sua nutrição das raízes, mas que retém sua
propriedade natural no fruto que serve
de alimento. No enxerto espiritual, contudo, não só derivamos o vigor e a seiva
da vida que fluem de Cristo, mas também transmitimos de nossa própria natureza
para a sua. O apóstolo desejava simplesmente realçar a eficácia da morte de
Cristo, a qual manifestou-se na destruição de nossa carne, e também a eficácia
de sua ressurreição que nos renova interiormente segundo a natureza superior do
Espírito.

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