João Calvino
(1509 - 1564)
As
Institutas
4. ESCRITURA
E TRADIÇÃO
Permitem,
com pronta facilidade, tanto a si mesmos como aos outros, ignorar, negligenciar,
desprezar a verdadeira religião, que foi transmitida pelas Escrituras e que
deveria ser mantida constante entre todos. E pensam pouco importar que alguém
creia ou deixe de crer acerca de Deus e de Cristo, desde que, pelo que chamam fé
implícita, submeta o entendimento ao arbítrio da Igreja. Nem se preocupam muito
se ocorre que se conspurque a glória de Deus com vociferantes blasfêmias, contanto
que ninguém levante um dedo contra o primado da sé apostólica e a autoridade da
Santa Madre Igreja.
Por que, afinal, lutam com tão
acirrada virulência e ferocidade em favor da missa, do purgatória, das peregrinações
e baboseiras tais, a ponto de negarem que tem de haver sã piedade, sem, por
assim dizer, fé mais explícita nestas coisas, quando, entretanto, nada dessas
coisas provam eles ser da Palavra de Deus?
Por quê, senão porque Deus é seu
ventre [Fp 3.19], a religião a cozinha, privados dos quais não só creem que não
serão cristãos, mas, realmente, nem ainda seres humanos? Ora, embora uns se
empanturrem regaladamente, outros roam frágeis migalhas, todos, entretanto,
vivem do mesmo caldeirão que, sem esses subsídios, não se esfriaria, não se
congelaria de todo. Por isso, já que pelo próprio ventre cada um desses está
extremamente solícito, assim cada qual se mostra acérrimo batalhador por sua
fé. Enfim, todos à uma a isto se votam: ou preservar incólume o poder, ou
abarrotar o ventre. ninguém, contudo, dá
sequer a mínima demonstração de zelo sincero.
Fonte: As
Institutas ,vol. 1 ,Carta ao Rei, pag 27-28
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