João Calvino
(1509 - 1564)
As
Institutas
3. APELO EM
FAVOR DOS FIÉIS OPRIMIDOS
E assim, não
sem justa razão, ó Rei invictíssimo, rogo-te que empreendas cabal investigação
desta causa, causa que até agora tem sido tratada desordenadamente, quando não de todo tumultuada, e sem
nenhuma sistemática de direito, e mais sob a agitação do impulso de seriedade
condigna do judiciário.
Nem julgues que estou aqui arquitetando
minha defesa pessoal, mercê da qualme resulte seguro regresso à pátria, da
qual, embora a ame tanto quanto é próprio do sentimento humano, no pé em que
estão as coisas atualmente não deploro profundamente estar dela distanciado.
Antes, estou a abraçar a causa comum de todos os piedosos, que outra não é
senão a própria causa de Cristo que, de todos os modos, jaz hoje em teu reino
lacerada e espezinhada, dir-se-ia reduzida a desesperada condição, isto, por
certo, mais em decorrência da tirania de certos fariseus do que de teu querer.
Aqui, porém, a nada leva denunciar como
isso acontece. O certo é que esta causa está sofrendo dura opressão. Isto,
pois, os ímpios têm conseguido: que a verdade de Cristo, se não é aniquilada
como que em debandada e destroço, por certo que será ostentada como que
enxovalhada e vilipendiada. E a pobrezinha da Igreja está ou devastada por
cruéis morticínios, ou arruinada por banimentos, ou ralada por ameaças e
terrores, que nem sequer ousa alçar a voz. E, ainda agora, com a costumeira
insânia e ferocidade, investem desabusados contra a muralha que já está a desmoronar-se,
e prontos a levar a plena consumação a devastação a que se acostumaram. Entrementes,
ninguém vem à frente para opor-se, em sua proteção, a tais explosões de
violência. E se alguns há que desejam ser tidos como a favorecer especialmente
a verdade, são eles de parecer que se devam ignorar o erro e a imprudência de
homens incultos. Assim, pois, falam homens comedidos, chamando de erro e
imprudência o que sabem ser a plena verdade de Deus; e chamando de homens incultos,
aqueles cuja inteligência veem não ter sido, de modo algum, desprezível a
Cristo, uma vez que ele os teve por dignos dos mistérios de sua celestial sabedoria!
A tal ponto, todos se envergonham do evangelho!
Cumprir-te-á, portanto, ó Rei
sereníssimo, não apartares os ouvidos, nem a mente de tão justa defesa,
mormente quando está em jogo questão de tão alta importância, a saber: como se
fará patente na terra o caráter intocável da glória de Deus, como sua dignidade
retenha a verdade de Deus, como entre nós o reino de Cristo permanecerá
íntegro e
inabalável. Matéria essa digna de tua atenção, digna de teu conhecimento, digna
de teu juízo!
Com efeito, certamente esta
consideração faz o verdadeiro rei: reconhecer-se um ministro de Deus na gestão
do reino. Aquele que assim não reina para o serviço da glória de Deus não
exerce o reino; ao contrário, exerce a usurpação. Ademais, muito se engana quem
espera a prosperidade diária do reino que não é regido pelo cetro de Deus, isto
é, por sua santa Palavra, quando não pode falhar o oráculo celeste em que se
proclamou, a saber, onde haja faltado a profecia, haverá de espalhar-se o povo
[Pv 29.18].
Tampouco deve privar-te desse esforço
o menosprezo de nossa humildade. De quão insignificantes somos, e abjetos
homúnculos, na verdade disso estamos honestamente cônscios. Sim, diante de
Deus, míseros pecadores; à vista dos homens, absolutamente desprezíveis,
escória e lixo do mundo; se o queres, ou qualquer outra coisa que de mais vil
se possa, porventura, referir. De sorte que nada resta de que nos possamos
gloriar diante de Deus, senão tão-somente de sua misericórdia [2Co10.17, 18],
mercê da qual, à parte de qualquer mérito nosso [Tt 3.5], fomos admitidos à
esperança da eterna salvação, nem mesmo diante dos homens nos sobra senão nossa
impotência [2Co 11.30; 12.5, 9], o que, a mera admissão, sequer com um aceno, é
entre eles suprema ignomínia.
Nossa doutrina, porém, sublime acima de
toda glória do mundo, invicta acima de todo poder, importa que seja enaltecida,
pois não é nossa, mas do Deus vivo e de seu Cristo, a quem o Pai constituiu
Rei, para que domine de mar a mar e desde os rios até os confins do orbe das
terras [Sl 72.8]. E de tal forma, em verdade, deve ele imperar, que, percutida
só pela vara de sua boca, a terra toda, com seu poder de ferro e bronze, com
seu resplendor de ouro e prata, ele a despedaçará como se outra coisa não fosse
senão diminutos vasos de oleiro, na exata medida em que os profetas vaticinam
acerca da magnificência de seu reino [Dn 2.34; Is 11.4; Sl 2.9].
Nossos adversários, é verdade,
vociferam em contrário que nos servimos aleivosamente da Palavra de Deus, da
qual, a seu ver, seríamos os mais depravados corruptores. Esta, na verdade, não
só é uma calúnia por demais maldosa, mas ainda é um deslavado despudoramento;
tu próprio, ao leres esta nossa confissão, em virtude da prudência que te
assiste, o poderás julgar. Aqui também será bom dizer alguma coisa, a qual te
provoque ou desejo e atenção, ou pelo menos te abra algum caminho para lê-la.1
Quando Paulo quis que toda profecia
fosse conformada à analogia da fé (Rm 12.6), estabeleceu uma regra extremamente
segura, pela qual deva ser testada a interpretação da Escritura. Portanto, se a
doutrina nos é esquadrinhada à base desta regra de fé, nas mãos nos está a
vitória. Pois, que melhor se coaduna com a fé e mais convenientemente do que
reconhecer que somos despidos de toda virtude, para que sejamos vestidos por
Deus; vazios de todo bem, para que sejamos por ele plenificados; escravos do
pecado, para que sejamos por ele libertados; cegos, para que sejamos por ele
iluminados; coxos, para que sejamos por ele restaurados; fracos, para que
sejamos por ele sustentados; despojando-nos de todo motivo de glória
pessoal,para que somente ele seja glorioso e nós nele nos gloriemos? [1Co 1.31;
2Co 10.17].
Quando dizemos estas e outras coisas
desta espécie, interrompem-nos eles e protestam com veemência, dizendo que,
desse modo, se subvertem não sei que cega luz da natureza, pretensas
preparações, além do livre-arbítrio e das obras meritórias
da salvação
eterna, com suas supererrogações. É que não podem suportar que em Deus residam
o pleno louvor e a glória de todo bem, virtude, justiça e sabedoria.
Com efeito, não lemos que fossem
repreendidos os que da fonte da água viva (Jo 4.14) tenham bebido sobejamente.
Ao contrário, sofrem pesadas censuras os que cavaram para si cisternas rotas e
que não conseguem reter água (Jr 2.13). Por outro lado, que mais se coaduna com
a fé do que assegurar-se que Deus nos seja Pai propício onde a Cristo é
reconhecido como irmão e propiciador; do que esperar todas as coisas alegres e
prósperas confiadamente da parte desse Deus cujo inenarrável amor para conosco
a tal ponto chegou que não poupou ao próprio Filho, entregando- o por nós [Rm
8.32]; que aquiescer a segura expectação da salvação e da vida eterna, quando
se tem em conta que Cristo nos foi dado pelo Pai, em quem todos os tesouros
estão escondidos?
A esta altura, agarram-nos e bradam
que não falta a essa certeza da fé arrogância e presunção. Como, porém, nada
devemos presumir de nós próprios, assim de Deus se deve presumir tudo. Nem por
outra razão nos despojamos de vanglória, senão para que aprendamos a
gloriar-nos no Senhor [2Co 10.17; 1Co 1.31; Jr 9.23, 24].
Que mais
direi?
Passa em
rápida revista, ó mui poderoso Rei, todos os elementos de nossa causae
considera-nos mais execrável que qualquer espécie de homens celerados, se não
verificares, com cristalina clareza, que nisto nos afadigamos e sofremos
apróbrios, porque depositamos nossa esperança no Deus vivo [1Tm 4.10], porque
cremos seresta a vida eterna: conhecer ao único Deus verdadeiro e àquele a quem
ele enviou, Jesus Cristo [Jo 17.3]. Em razão desta esperança, alguns dentre nós
são confinado sem grilhões, outros fustigados com varas, outros levados de um
lado para outro como objeto de ridículo e zombaria; uns forçados ao exílio,
outros torturados com extrema crueldade; outros, alijados pela fuga. Todos nos
vemos oprimidos pela angustiada situação, apostrofados com terríveis
execrações, lacerados de infâmias, tratados de maneiras as mais afrontosas.
Atenta, agora, para nossos adversários
(falo da classe dos sacerdotes, a cujo arbítrio e talante os demais exercitam
hostilidades para conosco, e por um momento pondera comigo de que são levados
pelo zelo).
Fonte: As
Institutas ,vol. 1 ,Carta ao Rei, pag 24-27
Nenhum comentário:
Postar um comentário