Mas não significa que a palavra de Deus haja falhado.*
Paulo fora
trazido a um estado de profunda comoção pela intensificação de
sua oração. Ansioso, pois, de voltar a sua tarefa de instrução, ele adiciona
o que se pode considerar uma afirmação qualificativa, como que
impedindo-se de atingir excessiva angústia. Seu ato de deplorar
a
destruição de seu povo pareceu produzir a absurda posição de que o
pacto que Deus fizera com Abraão havia fracasso (porque a graça de
Deus não podia deixar os israelitas sem abolir o pacto). Então aproveita
a oportunidade para antecipar este absurdo, e mostra que
a
graça de Deus estivera em constante atividade entre o povo judeu, de
tal modo que a verdade do pacto permanecia firme, apesar da profunda cegueira deles.
Alguns
leem: "Mas não é possível...", como se o grego fosse οιοντε Porém,
visto que esta redação não se encontra em qualquer manuscrito, prefiro
a redação comum: "Não que haja falhado", no seguinte sentido: "Ao
deplorar a destruição de minha nação, não significa que creio que a promessa de Deus,
outrora dirigida a Abraão, esteja agora sem efeito."
Porque
nem todos os de Israel são de fato israelitas. A
tese de Paulo tem por base o fato
de que a promessa foi dada a Abraão e a sua progênie, porém de modo
que esta herança não esteja [automaticamente] relacionada com todos seus descendentes,
sem distinção. Segue-se que a apostasia de alguns não impedirá que o pacto
permaneça imutável e inabalável.
Entretanto, para que fique
mais evidente em que condição o
Senhor adotou a progênie de
Abraão como povo de sua propriedade exclusiva, devemos considerar dois pontos
aqui. Primeiro, a promessa de salvação, dada a Abraão, pertence a
todos que reconhecem sua descendência natural nele, visto que
ela é oferecida a todos sem exceção. Por esta razão são eles
corretamente intitula dos _herdeiros_
e _sucessores_ do
pacto feito com Abraão, ou, segundo afirma
a Escritura, os _filhos
da promessa_. Visto ser da vontade do Senhor
que seu pacto fosse selado, tanto em Ismael e Esaú, como
obstante, testifica em Ezequiel 16, que todos eles
são seus filhos. Sumariando,
quando o povo todo é chamado a herança de Deus e povo de sua propriedade particular, significa que eles foram escolhidos pelo Senhor,
quando a promessa de salvação lhes
fora oferecida e confirmada pelo símbolo da circuncisão. Não
obstante, visto que muitos deles rejeitam esta
adoção, movidos por
sua ingratidão, e assim deixam de desfrutar seus benefícios em qualquer grau, outra
diferença suscita-se entre eles com relação ao cumprimento da promessa. Para evitar que alguém pensasse quão estranho era que o
cumprimento da promessa não se evidenciasse em muitos dos judeus, Paulo, pois, nega que estivessem incluídos na verdadeira eleição divina.
Podemos, caso se prefira, colocar de outra forma,
ou, seja: "A
eleição geral do povo de Israel não impediu Deus
de separar para si,
em consonância com seu secreto conselho, aqueles
que lhe aprouve
eleger." A condescendência divina em fazer
Deus um pacto de vida
com uma única nação é deveras um exemplo notável
de sua imerecida
mercê; sua graça oculta, porém, é mais evidente na segunda
eleição, a qual é restrita a apenas uma parte da
nação.
Ao
dizer que _nem todos os de Israel são de fato israelitas_, e que _nem por serem descendência de Abraão são todos seus filhos_, Paulo está
usando uma figura de linguagem conhecida como _paronomásia_. Na
primeira sentença, ele inclui todos os descendentes; na segunda, menciona somente os
filhos legítimos que não apostataram de
sua
posição.
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