quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Comentário de João Calvino Romanos 9 versículo 6

Mas não significa que a palavra de Deus haja falhado.* 

Paulo fora trazido a um estado de profunda comoção pela intensificação de sua oração. Ansioso, pois, de voltar a sua tarefa de instrução, ele adiciona o que se pode considerar uma afirmação qualificativa, como que impedindo-se de atingir excessiva angústia. Seu ato de deplorar
a destruição de seu povo pareceu produzir a absurda posição de que o pacto que Deus fizera com Abraão havia fracasso (porque a graça de Deus não podia deixar os israelitas sem abolir o pacto). Então aproveita a oportunidade para antecipar este absurdo, e mostra que
a graça de Deus estivera em constante atividade entre o povo judeu, de tal modo que a verdade do pacto permanecia firme, apesar da profunda cegueira deles.
          
              Alguns leem: "Mas não é possível...", como se o grego fosse οιοντε Porém, visto que esta redação não se encontra em qualquer manuscrito, prefiro a redação comum: "Não que haja falhado", no seguinte sentido: "Ao deplorar a destruição de minha nação, não significa que creio que a promessa de Deus, outrora dirigida a Abraão, esteja agora sem efeito."
Porque nem todos os de Israel são de fato israelitas. A tese de Paulo tem por base o fato de que a promessa foi dada a Abraão e a sua progênie, porém de modo que esta herança não esteja [automaticamente] relacionada com todos seus descendentes, sem distinção. Segue-se que a apostasia de alguns não impedirá que o pacto permaneça imutável e inabalável.
Entretanto, para que fique mais evidente em que condição o

Senhor adotou a progênie de Abraão como povo de sua propriedade exclusiva, devemos considerar dois pontos aqui. Primeiro, a promessa de salvação, dada a Abraão, pertence a todos que reconhecem sua descendência natural nele, visto que ela é oferecida a todos sem exceção. Por esta razão são eles corretamente intitula dos _herdeiros_ e _sucessores_ do pacto feito com Abraão, ou, segundo afirma a Escritura, os _filhos da promessa_. Visto ser da vontade do Senhor que seu pacto fosse selado, tanto em Ismael e Esaú, como  
afirma a Escritura, os _filhos da promessa_. Visto ser da vontade do Senhor que seu pacto fosse selado, tanto em Ismael e Esaú, como em Isaque e Jacó, é evidente que isso não lhe era de todo estranho, a não ser, talvez, por uma desconsideração da circuncisão, a qual lhes fora comunicada por mandamento divino. Mas não podemos manter esta posição sem desonrar a Deus. O apóstolo afirmara antes que os pactos lhes pertenciam, mesmo que não cressem [3.3]. Em Atos 3.25, Pedro diz: "Vós sois os _filhos_ dos profetas e da _aliança_ que Deus estabeleceu com vossos pais", já que eram os descendentes dos profetas. O segundo ponto a ser considerado consiste em que o título 'filhos da promessa' pertence propriamente àqueles em quem se encontram o poder e a eficácia de Deus. Segundo esta opinião, Paulo aqui assevera que nem todos os filhos de Abraão são de fato filhos de Deus, ainda que o Senhor haja firmado com eles um pacto, visto que poucos continuaram firmes na fé do pacto. Deus mesmo, não obstante, testifica em Ezequiel 16, que todos eles são seus filhos. Sumariando, quando o povo todo é chamado a herança de Deus e povo de sua propriedade particular, significa que eles foram escolhidos pelo Senhor, quando a promessa de salvação lhes fora oferecida e confirmada pelo símbolo da circuncisão. Não
obstante, testifica em Ezequiel 16, que todos eles são seus filhos. Sumariando, quando o povo todo é chamado a herança de Deus e povo de sua propriedade particular, significa que eles foram escolhidos pelo Senhor, quando a promessa de salvação lhes fora oferecida e confirmada pelo símbolo da circuncisão. Não obstante, visto que muitos deles rejeitam esta adoção, movidos por sua ingratidão, e assim deixam de desfrutar seus benefícios em qualquer grau, outra diferença suscita-se entre eles com relação ao cumprimento da promessa. Para evitar que alguém pensasse quão estranho era que o cumprimento da promessa não se evidenciasse em muitos dos judeus, Paulo, pois, nega que estivessem incluídos na verdadeira eleição divina.

Podemos, caso se prefira, colocar de outra forma, ou, seja: "A
eleição geral do povo de Israel não impediu Deus de separar para si,
em consonância com seu secreto conselho, aqueles que lhe aprouve
eleger." A condescendência divina em fazer Deus um pacto de vida
com uma única nação é deveras um exemplo notável de sua imerecida mercê; sua graça oculta, porém, é mais evidente na segunda
eleição, a qual é restrita a apenas uma parte da nação.


Ao dizer que _nem todos os de Israel são de fato israelitas_, e que _nem por serem descendência de Abraão são todos seus filhos_, Paulo está usando uma figura de linguagem conhecida como _paronomásia_. Na primeira sentença, ele inclui todos os descendentes; na segunda, menciona somente os filhos legítimos que não apostataram de sua posição.


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