quarta-feira, 15 de agosto de 2018

As institutas Vol.1 (parte 5)


João Calvino (1509 - 1564)

As Institutas

5. LIBELO ADVERSÁRIO
Nem ainda assim cessam de investir contra nossa doutrina e de invectivá-la e infamá-la com quantas alcunhas possam, no empenho de torná-la ou odiosa ou suspeita. Dizem ser ela doutrina nova e originada não há muito. Ridicularizam-na de ser duvidosa e incerta. Indagam de que milagres tenha sido confirmada. Perguntam se porventura é procedente que ela prevaleça contra o consenso de tantos santos pais e contra o uso mui antigo. Insistem dizendo que confessamos ser ela cismática, uma vez que move guerra contra a Igreja, ou que declaramos que a Igreja esteve semimorta por muitos séculos, durante os quais nada parecido se fez ouvir.
           Finalmente, ponderam que não se faz necessário farta cópia de argumentos, pois o que ela é se pode julgar pelos próprios frutos, visto que tem engendrado tão avultado acervo de seitas, cifra tão elevada de tumultos sediciosos, tão desbragada licenciosidade.

As institutas Vol.1 (parte 4)


João Calvino (1509 - 1564)

As Institutas
4. ESCRITURA E TRADIÇÃO
Permitem, com pronta facilidade, tanto a si mesmos como aos outros, ignorar, negligenciar, desprezar a verdadeira religião, que foi transmitida pelas Escrituras e que deveria ser mantida constante entre todos. E pensam pouco importar que alguém creia ou deixe de crer acerca de Deus e de Cristo, desde que, pelo que chamam fé implícita, submeta o entendimento ao arbítrio da Igreja. Nem se preocupam muito se ocorre que se conspurque a glória de Deus com vociferantes blasfêmias, contanto que ninguém levante um dedo contra o primado da sé apostólica e a autoridade da Santa Madre Igreja.

As institutas Vol.1 (parte 3)


João Calvino (1509 - 1564)

As Institutas
3. APELO EM FAVOR DOS FIÉIS OPRIMIDOS
E assim, não sem justa razão, ó Rei invictíssimo, rogo-te que empreendas cabal investigação desta causa, causa que até agora tem sido tratada desordenadamente, quando não de todo tumultuada, e sem nenhuma sistemática de direito, e mais sob a agitação do impulso de seriedade condigna do judiciário.
       Nem julgues que estou aqui arquitetando minha defesa pessoal, mercê da qualme resulte seguro regresso à pátria, da qual, embora a ame tanto quanto é próprio do sentimento humano, no pé em que estão as coisas atualmente não deploro profundamente estar dela distanciado. Antes, estou a abraçar a causa comum de todos os piedosos, que outra não é senão a própria causa de Cristo que, de todos os modos, jaz hoje em teu reino lacerada e espezinhada, dir-se-ia reduzida a desesperada condição, isto, por certo, mais em decorrência da tirania de certos fariseus do que de teu querer.

sábado, 4 de agosto de 2018

As institutas Vol.1 (parte 2)


João Calvino (1509 - 1564)

As Institutas

2. DEFESA DOS FIÉIS PERSEGUIDOS
Sei perfeitamente de quão atrozes denúncias teriam eles enchido teus ouvidos e mente, no afã de tornar nossa causa diante de ti a mais odiosa possível. Mas, em função de tua clemência, isto deve ser-te cuidadosamente ponderado, se é suficiente haver acusado, que nenhuma inocência haverá de subsistir, nem nas palavras, nem nas ações.

        Se no interesse de suscitar ódio, porventura alguém alegue que esta doutrina, da qual estou tentando dar-te a razão, já por muitos tem sido condenada pelo veredicto de todos os Estados, solapada por muitas sentenças peremptivas dos tribunais, outra coisa não estará a dizer senão que, em parte, ela tem sido violentamente pisoteada pela facciosidade e prepotência dos adversários; em parte, insidiosa e fraudulentamente oprimida por suas falsidades, invencionices e calúnias.

       Constitui arbitrariedade o fato de que, não facultada oportunidade de defesa a uma causa, contra ela se passem sanguinárias sentenças; é dolo que, à parte de qualquer delito, ela seja acusada de fomentar sedições e promover malefícios.
   
           Para que não pense alguém que estamos a queixar-nos dessas coisas injustamente, tu mesmo, ó Rei nobilíssimo, podes ser-nos testemunha de com que mentirosas calúnias ela é diariamente trazida diante de ti, como se a outro fim não disponha senão arrebatar das mãos dos reis os cetros, pôr por terra todos os tribunais e normas judiciárias, subverter a todas as instituições e estruturas político-administrativas, perturbar a paz e a tranqüilidade públicas, anular todas as leis, desmantelar domínios e posses, enfim, promover total ruína de tudo. E, no entanto, o que ouves é apenas uma parcela mínima. Pois que certas coisas horrendas se espalham entre o povo, coisas que, se fossem verdadeiras, deveria o mundo inteiro, com merecida razão, julgá-la digna, juntamente com seus autores, de mil fogueiras e cruzes.

         Quem a esta altura haveria de surpreender-se de que, onde se dá crédito a essas civilizações profundamente iníquas, contra ela se tem inflamado o ódio público?

         Eis por que todas as suas classes, de comum acordo, concordam e cooperam em nossa condenação, bem como de nossa doutrina, arrebatados por esta paixão, quantos se assentam nos tribunais para exercer o juízo, em lugar de sentenças reais, pronunciam os preconceitos que trouxeram de casa. E julgam haver-se criteriosamente desincumbido de suas funções, se a ninguém ordenam que seja levado ao suplício, a não ser que seja incriminado por confissão direta ou por sólidos testemunhos. Mas, de que crime? Dessa doutrina condenada, dizem-no.

       Mas, em bases de que direito foi ela condenada? Ora, isto deveria ser a essência da defesa, a saber, não repudiar a própria doutrina, ao contrário, havê-la por verdadeira. Aqui, no entanto, nos é vedado até mesmo o direito de falar em surdina!

Fonte: As Institutas ,vol. 1 ,Carta ao Rei, pag 23-24